2013-11-03

Por Trás De Grandes Mulheres Sempre Existem Grandes Homens (Parte 3 e Última)

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Nem todas as imagens desta postagem são as mesmas da versão em inglês (veja postagem anterior)

6) Benicio:

Nascido em 1936 na cidade de Rio Pardo (RS), José Luiz Benicio da Fonseca, ou simplesmente Benicio, teve um papel muito importante no sucesso e popularização da personagem Brigitte Montfort: foi ele o ilustrador que, baseado nos conceitos iniciais do criador da personagem, melhor materializou sua imagem nas capas dos livros da Coleção ZZ7.


Para atender uma solicitação da Editora Monterrey, o erotismo foi implementado como um componente indispensável no desenvolvimento de cada capa e o talento de Benicio levou muitas pessoas a acreditar que as capas dos livros foram, de fato, a principal razão para um volume tão grande de vendas desses livros. Esse pensamento é justificado pelos seguintes fatores: a) a existência de uma ditadura no Brasil naquela ocasião, cuja censura mantinha limitado ou inacessível qualquer material contendo nudez ou pornografia; b) o baixo preço de venda ao consumidor de um livro contendo, no mínimo, uma cena erótica; c) e, de fato, o soberbo trabalho do ilustrador. Não é raro ouvir de pessoas atualmente maduras, com mais de 50 anos de idade, relatos e até confissões de masturbação, já que as capas desses livros era o único material acessível e barato contendo aquilo que era considerado o mais próximo de uma cena de nudez. Benicio, portanto, proporcionou a muitos leitores masculinos a sensação de terem tido um relacionamento bastante íntimo com Brigitte Montfort.

Mas Brigitte não fazia sucesso somente com os homens. De acordo com Benicio, “Brigitte representava a mulher livre, emancipada, mais inteligente do que os homens, rebelde, que lutava contra os ditadores, os políticos velhacos e os conceitos hipócritas daquela época. Brigitte se transformou em um vício e em uma válvula de escape para a juventude reprimida da época”. Brigitte foi, portanto, uma referência para as mulheres, tanto pela sua beleza quanto pelo seu comportamento e estilo de vida – e isso teve, naturalmente, a contribuição dos textos de Lou Carrigan.


Quase uma deusa, com longos cabelos negros, olhos azuis, pernas roliças, pele tão dourada quanto um pêssego, poliglota e extremamente inteligente. A fim de definir qual seria a aparência da personagem e como desenhá-la em diferentes posições e situações, Benicio primeiramente se inspirou numa “playmate” que ele viu numa das edições estadunidenses da Playboy (que não era editada no Brasil naquele tempo, nem mesmo com o nome de Revista Homem) e, posteriormente, por uma carioca chamada Maria de Fátima Monteiro, ou ainda Maria de Fátima Priolli, nome como ficou conhecida depois do seu casamento com o empresário Mário Priolli. Maria de Fátima costumava dar aulas numa escola do Leblon e fazia parte da alta sociedade carioca. Ganhou notoriedade por ser uma pré-candidata do concurso Miss Guanabara quando tinha 20 anos, mas cuja participação acabou declinando por motivos pessoais. A imprensa especializada e boa parte do público a consideravam uma das mulheres mais bonitas do Brasil naquela época.


José Alberto Gueiros, Diretor da Editora Monterrey, e Maria de Fátima eram amigos e ela soube por ele, anos depois, que ela era a musa de Benicio: “Certa vez ele me disse que ela ficou muito orgulhosa de ter inspirado a personagem. Nunca tive a oportunidade de ouvir isso dela, pois eu nunca a vi pessoalmente. Ela era muito badalada, foi antes de se casar com o Mário Priolli e tinha fotos dela em várias revistas”, disse Benicio.

Não há dúvida que era necessária muita inspiração para atender aos pedidos detalhados que Benicio estava acostumado a receber de José Alberto Gueiros para a composição de uma nova capa. Esta é parte da carta que Gueiros enviou a Benicio encomendando a capa do livro nr. 41 da Série Vermelha denominado “Viagem de Prazer”: “Brigitte Montfort numa blusa de foulard italiano altamente decotada, saltando da carlinga transparente de um desses modernos helicópteros. Nessa descida, ela mostra as pernas, naturalmente”.

Recomendação idêntica foi dada para a edição seguinte, “O Príncipe e a Rainha": “Brigitte, linda de morrer, num bíquini azul, está no trampolim de uma piscina americana ultra-luxuosa. Você pode fazê-la sentada numa prancha, ultra provocante. Não deve estar pulando nem em posição de quem vai saltar, pois isto a faria mais musculosa e nós a queremos bem gata, bem sedutora, quase serpente enrodilhada para o bote”.


As capas das primeiras edições da Série Vermelha da Coleção ZZ7 com Brigitte, Giselle e, eventualmente, outros personagens foram desenhadas por um ilustrador holandês radicado no Brasil e conhecido apenas como Hack. Apesar de ele ter sido considerado um grande ilustrador e de ter colaborado em muitos outros livros da Editora Monterrey, ele nunca foi creditado na Coleção ZZ7 como Benicio foi posteriormente. Os primeiros livros da Série Vermelha continham, também, cinco ilustrações internas cada, provavelmente também desenhadas por Hack.

Ilustrações internas dos seguintes livros (todos da Série Vermelha), da esquerda para a direita: No Mistério do Átomo Z Parte 1 - Livro Nr. 7 (com Frank Minelo), No Mistério do Átomo Z Parte 2 - Livro Nr. 8, O Crime Sagrado - Livro Nr. 9, Sangue na Grécia - Livro Nr. 10 (com Miky Grogan):

  
A cooperação entre Benicio e a Editora Monterrey começou através da indicação a José Alberto Gueiros de um amigo em comum, Ronaldo Graça, outro ilustrador que desenvolvia trabalhos para a Monterrey: "Graça me disse que havia em Porto Alegre um cara que ilustrava como os americanos, um artista formidável. Eu escrevi para Benicio, expliquei que queria mudar a aparência de nossos livros, e ele passou a colaborar", disse Gueiros.

Duas cenas similares, as primeiras da Série Vermelha ilustradas por Hack e as da Série Azul ilustradas posteriormente por Benicio:


Igualmente a Lou Carrigan, Benicio trabalhou primeiramente no desenvolvimento da personagem Brigitte Montfort e somente algum tempo depois é que ele desenvolveu sua versão de Giselle, já que ele ilustrou as capas de todos os livros da Série Azul.

Ainda que Benicio tenha desenhado algumas capas totalmente novas para a Série Azul, inclusive para substituição de capas que ele mesmo desenhou para a mesma estória da Série Vermelha (a Série Azul era uma re-publicação das estórias da Série Vermelha), depois de algum tempo a Editora Monterrey decidiu repetir capas para diferentes livros dentro da mesma Série, entre as diferentes Séries da Coleção ZZ7, ou mesmo entre diferentes coleções. De qualquer forma, estima-se que Benicio tenha ilustrado um total de 460 diferentes capas que foram utilizadas de uma a três vezes na Coleção ZZ7.

Capas da Série Azul dos livros previamente mencionados: "Viagem de Prazer" e "O Príncipe e a Rainha", novamente ilustradas por Benicio:

  
Exemplo de ilustração de capa que foi usada três vezes na Coleção ZZ7, duas na Série Azul:

  
Exemplo de ilustração de capa usada tanto na Série Vermelha quanto na Série Verde da Coleção ZZ7, e também numa diferente coleção denominada "Coleção Pecado". Brigitte Montfort é personagem somente do primeiro livro (Série Vermelha):


A colaboração entre Benicio e a Editora Monterrey não estava limitada à Coleção ZZ7, portanto ele também desenvolveu capas para outros livros e coleções. A popularidade da Coleção ZZ7 naturalmente contribuiu para o aumento de popularidade de Benicio, que acabou desenvolvendo ilustrações também para editoriais de revistas, para cartazes da indústria cinematográfica brasileira, para o segmento de arquitetura, para propagandas, etc. Benicio continua trabalhando no seu ateliê no Rio de Janeiro e o link para seu sítio eletrônico, bem como exemplos de seu extraordinário trabalho, encontram-se abaixo.

Editoral com personagens marcantes da história do Brasil:


Propaganda para o Banco do Brasil:


 Musas de uma geração:


Propaganda para o segmento de arquitetura:


Cartazes para a indústria cinematográfica brasileira:


Editorial para a revista Playboy editada no Brasil: 


Outros trabalhos interessantes:


Do rascunho ao resultado final:

Em Janeiro de 2011, Benicio foi surpreendido com a notícia de que um de seus trabalhos foi pirateado na Alemanha: a capa do álbum denominado "Circus Maximus" do MC Morlockk Dilemma lançado naquele ano é uma cópia idêntica da capa do álbum "Amar Pra Viver ou Morrer de Amor" do cantor Erasmo Carlos lançado em 1982. "Foi a primeira vez que enfrentei um problema desse tipo. O advogado conseguiu uma solução amigável e o caso foi resolvido com a retirada da capa do mercado”, disse Benicio. Confira abaixo:


7) Helio Do Soveral:

Não existe qualquer evidência explícita nos livros, mas supõe-se que Helio Do Soveral contribuiu com José Alberto Gueiros, Diretor da Editora Monterrey, escrevendo um ou mais livros logo após o lançamento da Coleção ZZ7, provavelmente alguns daqueles cuja autoria é informada ser apenas como narrações de personagens como Brigitte Montfort ou John Pearson escritas em primeira pessoa (por exemplo, Olhar Para A Morte – livro nr. 12, O Trono Escarlate – livro nr. 13 ou Whisky 33 – livro nr. 18, todos da Série Vermelha).


Conhecido como o escritor dos 19 pseudônimos, Helio Do Soveral escreveu aproximadamente 230 livros, a maioria dirigida ao público infanto-juvenil. Além disso, escreveu novelas de rádio, roteiros para programas de rádio e televisão, e um número considerável de peças teatrais completas.

Em 1965 José Alberto Gueiros convidou Soveral a criar seu próprio personagem de espionagem, alguém que deveria superar o sucesso de Giselle e Brigitte Montfort no mercado de livros de bolso. Ele sabia muito bem que essa missão não seria fácil e que, portanto, sua criação deveria ser algo completamente fora de padrões para que pudesse chamar atenção. Seu mais famoso personagem, como consequência, nasceu sob esse desafio: Keith Oliver Durban, também conhecido K. O. Durban mas mais conhecido como Nocaute Durban.


Ao contrário de James Bond, K. O. Durban tinha um pensamento absolutamente anárquico e recusava-se terminantemente a sujeitar-se às ordens de governantes de qualquer país. Milionário, ele era o dono de uma ilha independente localizada no Oceano Pacífico onde ele vivia com outros 6 habitantes: Gerda Offenbach, sua noiva alemã com a qual ele ficava nas segundas-feiras; Consuelo, sua ciumenta noiva espanhola que via às terças; Pétala de Lótus, sua noiva chinesa que via às quartas; Filha De Búfalo, sua noiva índia pele-vermelha de origem norte-americana com a qual ficava somente às quintas-feiras; Jandira, sua noiva mulata brasileira que via às sextas; e M’Bata, a noiva dos sábados de origem africana.  Aos domingos K. O. Durban descansava, pois dizia que ninguém é de ferro. A bandeira de sua ilhota tinha fundo branco e, no meio, dois braços desenhados demonstrando o famoso gesto “banana”, sua mensagem para o resto do mundo.

Seu maior inimigo, Mary Escalder Roosevelt, também conhecida como Senhora do Mundo, era completamente apaixonada por ele, mas foi a única mulher do seu relacionamento que ele nunca pegou. A coleção K. O. Durban chegou a vender 70.000 livros por edição no pico e é composta por 40 livros com 20 aventuras duplas.

Uma homenagem de Benicio datada de 1998: Helio Do Soveral aos 80 anos, seu principal personagem K. O. Durban e algumas de suas noivas, todos juntos na Ilha Aloana:


Nascido em Setúbal, Portugal a 30 de Setembro de 1918, Helio Do Soveral Rodrigues De Oliveira Trigo emigrou para o Brasil ainda bastante jovem, viveu durante aproximadamente 60 anos no Rio de Janeiro e faleceu em Brasília a 21 de Março de 2001.

Fontes:
Fotos de Benicio e ilustrações digitalizadas: www.benicioilustrador.com.br
Foto de Helio Do Soveral: http://memorialsoveral.blogspot.com.br/
Digitalizações de capas: Acervo próprio
Algumas digitalizações de capas foram obtidas na Internet
Citações da reportagem de Gonçalo Junior para a Playboy de Março de 2013
Artigo de Dagomir Marquezi publicado na revista VIP Exame Magazine em Maio de 1998
Artigo de Dagomir Marquezi publicado na revista Status em 1981

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